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JOÃO WESLEY E AS CRIANÇAS
Como é que João Wesley se relacionava com
“os pequeninos” tão amados e valorizados por Jesus?
Com quase 88 anos de idade, no fim da sua
vida, Wesley era homem famoso. Ao longo dos anos, muitos
livros sobre ele têm enfatizado várias facetas da sua
vida e obra. Thomas Coke e Henry Moore publicaram uma
biografia dele em 1792, no ano depois da sua morte,
enfatizando “o grande avivamento da religião na Europa e
América da qual ele foi o primeiro e principal
instrumento”. Além de fundador do movimento metodista,
ele é visto como evangelista, reformador social,
teólogo, educador, filantropo... a lista vai longe.
Nesse ensaio olhamos uma outra faceta, sua valorização
das crianças.
I . O Presbitério de Epworth
Nosso ponto de partida será seu
relacionamento com os seus nove irmãos e irmãs que
chegaram à maturidade, no acolhedor ambiente da casa
pastoral de Epworth onde ele foi criado. As experiências
do presbitério de Epworth influenciaram profundamente as
idéias e práticas de Wesley na relação
com as crianças. As únicas crianças com que João Wesley
convivia na infância eram seus irmãos e irmãs. Também, a
sua formação até os dez anos de idade era exclusivamente
familiar, com a excepção de alguns meses depois do
famoso incêndio de 9 de fevereiro de 1709, quando
Joãozinho foi salvo como uma “tição tirado do fogo”.
Nesta noite todos os filhos eram distribuídos entre
vizinhos. Suzana Wesley era a mestre-escola de sua
família, pois não havia escolas públicas.
Também, sendo descendente de fidalgos,
não permitiu que seus filhos convivessem com os
paroquianos. Devemos notar brevemente algumas das
características do lar de Wesley. Era um lar onde a
frugalidade era necessária. O Reverendo Samuel sempre
tinha um ordenado pequeno, e a família
aumentava de ano para ano. A este problema, devemos
acrescentar o fato de que o corajoso ministro granjeou
má vontade por parte dos paroquianos. Em parte isso era
devido ao fato de ser ele da classe alta, enquanto seus
membros eram pobres e incultos. Mais sério, porém, é que
ressentiam pela condenação dos seus pecados e vícios.
Também, eles não apreciavam o seu ponto de vista
político. Em 1702, este ressentimento se expressou num
incêndio parcial da casa pastoral. Sete anos mais tarde
agiram novamente, apunhalando algum do seu gado,
destruindo-lhe a roça, ameaçado sua vida, e queimando
totalmente sua casa. Tudo isso tanto abalou as finanças
da família que 13 anos depois do incêndio, a casa estava
mobiliada somente pela metade, e a família sem roupa
adequada. Samuel Wesley era membro da “Convocação”, o
corpo governante da Igreja Anglicana; este encargo
exigia ausências prolongadas da paróquia, durante o qual
ele precisava providenciar um
cura
para
suprir a sua falta.
Apesar das finanças limitadas, conseguiu
a melhor educação possível para seus filhos. Com este
acúmulo de dificuldades, não nos surpreendemos com o
fato de que tenha se endividado, e tenha sido lançado na
prisão, sendo que a prisão por dívidas neste tempo era
fato comum. É celebre a conversa entre Susana e o
Arcebispo de York: “Dize-me, senhora Wesley, se de fato,
jamais sentiste falta de pão”. “Meu Senhor”, respondeu
ela, “para dizer a verdade, nunca me faltou o pão; mas
tenho tido tanto trabalho para arranjá-lo antes de o
comer, e para pagá-lo depois, que muitas vezes ele me é
muito amargo e julgo, que ter-se pão em tais condições
se aproxima bem do grau de miséria do que não tem
nenhum”.
Era um ambiente onde se prestigiava o
saber. O pai da família era homem erudito, e terceira
geração de diplomados pela Universidade de Oxford. Entre
os seus escritos consta as “Dissertaçoes sobre Jó”, que
ele dedicou à Rainha Carolina. Esta obra é, muitas
vezes, ridicularizada por escritores modernos; porém,
conforme escreve McConnell, o livro era apreciado
naquele tempo, e muitos do clero o compraram. A mente da
mãe, Susana, se deleitava com questões teológicas e
filosóficas. Pouco antes de atingir seus 13 anos, ela
havia passado em revista toda a matéria em disputa entre
os dissidentes e anglicanos, e optado pela doutrina
anglicana. Os filhos herdaram este gosto pela cultura.
Wesley solicitou à mãe que descrevesse
seu método de educação. Ela fez numa carta de 24 de
Julho de 1732 que ele publicou no Diário, sob data de 1
de agosto de 1742, a data da morte da progenitora.
Chegando à idade de 5 anos, cada criança era ensinada a
ler; todos menos Molly e Nancy, aprenderam o alfabeto em
um só dia; estas requereriam um dia e meio. Sua cartilha
de leitura era o primeiro capítulo de Gênesis. Samuel,
por exemplo, aprendeu o alfabeto em poucas horas; no dia
11 de fevereiro até a Páscoa, já lia todo o primeiro
capítulo de Gênesis correntemente. Hetty, geralmente
considerada a mais brilhante da turma, aprendeu o grego
aos 8 anos. Marta, teve a infelicidade de casar-se com
um homem que veio a pregar e a praticar a poligamia,
mesmo assim, pelo brilho do seu intelecto, fora
convidada para fazer parte do círculo do Dr. Johnson,
figura máxima da elite intelectual da Inglaterra da
época.
Era um lar onde a religião era tomada a
sério e onde reinava a disciplina. Certamente não
poderia ser de outra forma. Samuel era filho e neto de
pastores dissidentes, e, estudando para o ministério
dissidente na famosa Academia de Stoke Newington,
convenceu-se que os Anglicanos tinham razão. Abandonado
a Academia, foi para Oxford onde arrolou-se como “aluno
pobre” no Colégio Exeter. Já vimos como Susana havia
deixado a Igreja do seu pai, por causa da consciência.
Descendentes de gerações de pregadores, e, pessoalmente
convictos da realidade da religião, era inevitável o
reflexo disto no seu lar. Dois breves parágrafos da
carta já citada bastam para ilustrar o que queremos
dizer:
As crianças da família eram ensinadas,
tão logo soubessem falar, a oração dominical, que tinham
que dizer sempre ao levantar e no deitar; a isso se
acrescentava à medida que cresciam, uma curta oração
pêlos pais, algumas coletas, um catecismo menor, e
alguma porção da Escritura, conforme as suas memórias
permitissem. Cedo tiveram que distinguir entre o Domingo
e os outros dias, antes deles poderem falar ou andar.
Logo eram ensinadas a ficar quietas no culto doméstico,
e a pedir uma benção imediatamente depois, o que faziam
por sinais, antes de poderem ajoelhar-se ou falar.
Alguns dos bons hábitos se perderam
quando, depois do incêndio, os filhos passaram alguns
meses com outras famílias. Para corrigir estas faltas,
um novo regime se instalou: Iniciou-se o costume de
cantar salmos ao começar e ao encerrar a escola de manhã
e à tarde. Também o costume do retiro geral foi iniciado
quando o maior se encarregava do menor, o segundo ao
penúltimo e assim sucessivamente lendo diariamente um
Salmo ou um capítulo do Novo Testamento. De manhã, eram
instruídos a lerem os salmos e um capítulo do Antigo
Testamento. Depois disto tinham as suas orações
particulares, antes de receber o seu desjejum ou entrar
no convívio familiar. A disciplina era rígida, tão
rígida que alguns estudiosos da vida de Wesley tendem a
crer que era completamente falho no elemento de alegria.
Porém em uma carta, João expressa saudades de casa
dizendo: “Epworth, que ainda amo acima de todos os
lugares no mundo.”
Quando faziam um ano eram ensinadas a
temer a vara e a chorar suavemente. Por esse meio eles
escaparam uma abundância de correção que eles teriam de
receber de outra forma. ...e assim a família vivia em
silencia como se não tivesse uma criança entre eles....
Comiam o que se colocava diante delas, na hora da
refeição, sem ser-lhes permitido comer ou beber a outra
hora, salvo em caso de doença.... O nome de Deus tomado
em vão, blasfêmias e juras, profanidade, obscenidade,
nomes rudes e mal-educados nunca se ouviam entre
elas.... Entre as regras do ‘regulamento interno’
constava a seguinte: “que nenhuma ação pecaminosa, como
mentira, pequeno roubo, brincadeira na igreja ou no dia
do Senhor, desobediência, briga, etc passa-se sem
castigo.” As horas de brincadeiras eram regulamentadas.
Sob a mesma data 1742, Wesley transcreveu
uma outra carta que Susana havia escrito ao marido. Ela
costumava, uma vez por semana, conversar com cada um dos
filhos separadamente, concernente as coisas de Deus e os
seus interesses espirituais. “Tomo tal proporção do
tempo que posso todas as noites conversar com cada
criança à parte... na 5a feira com Joãozinho ...” Eis
alguns dos aspectos do lar em que Wesley foi criado, e
as crianças que eram quase seus únicos companheiros
durante os primeiros 10 anos de sua existência. O método
de sua mãe em criar filhos influenciou fortemente no
trabalho que Wesley realizou com crianças mais tarde.
II . O CLUBE SANTO E AS CRIANÇAS
A natureza do “clube santo” é geralmente
conhecida. Nas palavras de Paulo aos Corintios, Carlos
Wesley o “plantou” em começos de 1729, quando João
estava em Wroote como cura de seu pai; porém voltando em
novembro para tomar o seu lugar no corpo docente do
Colégio Lincoln na Universidade de Oxford, João “regou”,
e Deus deu o “incremento” (I Co 3.6). Jackson resume uma
carta de Carlos Wesley, onde comenta o apelido
“Metodista”, nas seguintes palavras: “Tinha referência à
conformidade com o método e as práticas estabelecidas
pelo estatuto da universidade, que ele e os seus amigos
religiosos professavam querer atingir”.
Tomavam a comunhão seanal, e não
trimestralmente como os outros alunos. Porém, quando
João chegou ele imediatamente formou o grupo (só de
quatro pessoas) em uma sociedade “para que pudessem, de
maneira ainda mais regular e sistemática, promover, um
do outro, o melhoramento intelectual, moral e
espiritual. Resolveram passar 3 ou 4 noites por semana
juntos, lendo o Novo Testamento em grego e os clássicos
gregos e latinos. Aos domingos, liam teologia”.
Porém
esta pequena sociedade literária logo descobriu outros
canais para a sua expressão . Em 1730, Guilherme Morgan
visitou no castelo, um réu, condenado pelo crime de
assassinato a sua própria esposa. Impressionado
sobremaneira com a condição dos presos, persuadiu os
outros a fazerem visita sistemática às prisões.
Escrevendo para o seu pai com respeito a esta visita,
João Wesley recebeu uma carta em que Samuel escreveu:
Valde
probo
(Aprovo grandemente), e recorda o seguinte: “quando era
acadêmico em Oxford, visitei no Castelo aí, e me lembro
disso com grande satisfação até odia de hoje”.
Isso foi o começo de um serviço social de
considerável alcance, inclusive a visita dos pobres, a
educação dos seus filhos, etc. Entre as regras do Clube
santo constam as seguintes na forma de perguntas: Será
que não podemos tentar fazer o bem para os que estão
famintos? Não podemos contribuir o pouco que temos para
que seus filhos tenham roupa e sejam ensinados a ler?
Não podemos ver se são ensinados sem catecismo as
orações curtas para a manhã e a noite?
Obter-se pormenores desses serviços é
difícil, mas há sugestões nas cartas de vários membros
do “Clube Santo”. Um dos mais ativos era Guilherme
Morgan . Na carta acima mencionada, Wesley descreve as
atividades dele com as crianças.
Freqüentemente entrava nas casas dos
pobres nas vilas ao redor de Holt, ajuntando as crianças
e as instruindo no seu dever para com Deus, ao próximo,
e si mesmas. Explicava-lhes a necessidade de oração
privada e pública e proporcionava-lhes as formas mais
apropriadas para as suas respectivas capacidades; e
reconhecendo o quanto do sucesso dos seus esforços
dependia da boa vontade delas, distribuía entre elas um
pouco do dinheiro poupado do jogo e dos outros gastos
comuns no lugar (Oxford). Uma carta de Gambold lança
mais luz sobre as atividades de Morgan. Ele gostava
muito de praticar obras de caridade; mantinha várias
crianças na escola. É
provável que os outros membros fizessem
serviços semelhantes. João Clayton escreveu das suas
atividades dizendo: “A mulher soletra mais ou menos, e
também um dos rapazes... Os rapazes recitam o catecismo
até o fim dos Mandamentos, e podem repetir as orações
para crianças da manhã e da tarde, do Manual de Ken”.
Além dessas atividades mais esporádicas,
os Metodistas de Oxford estabeleceram uma escola para
crianças pobres. Com o seu dinheiro e com alguma ajuda
de fora, pagavam a professora, e até ajudavam a vestir
as crianças. Numa época quando não existiam escolas
públicas e quando os pobres eram esquecidos pela Igreja,
Wesley e os seus companheiros se mobilizaram para
ensinar as primeiras letras para os pobres da redondeza,
proporcionado-lhes também os rudimentos da religião,
como então a
compreendiam.
Quando os irmãos Wesley, Benjamim Ingham
e Carlos Delamotte embarcaram para Georgia em 14 de
outubro de 1735, o Clube Santo não desapareceu em
Oxford. Mas estes quatro jovens estabeleceram uma
“filial” do Clube no Novo Mundo. Por isso, podemos, sem
contradição, tratar da Missão de Georgia como uma fase
das atividades do Clube Santo. O Dr. João Burton, do
Colégio de Corpus Christi, que havia presentado João
Wesley ao General Oglethorpe, fundador da Colônia de
Georgia, como possível
candidato, Burton deu valioso conselho ao
jovem missionário antes de embarcar. Aconselhou que não
esperasse até chegar em Georgia para começar a sua obra,
pois a viagem oferecia esplendidas oportunidades para o
serviço missionário. De que Wesley aceitou o conselho é
ampla testemunha a seguinte passagem do Diário: Das 9 ás
12 “ Senhor Ingham instruía as crianças ... As 4 da
tarde havia oração vespertina quando a segunda lição era
explicada ... ou as crianças eram catequizadas e
instruídas, na presença da congregação” (21/10/1735). É
certo que a maior parte do tempo destes “ metodistas”
não era gasta com crianças; os adultos exigiam mais
tempo. Mas as crianças não eram esquecidas.
Em Georgia, João Wesley fora pastor em
Savannah, e, por algum tempo,teve a responsabilidade do
cuidado espiritual de todas as almas da colônia.
Carlos
Delamotte se dedicava com à educação mas Wesley também
se preocupava com as crianças, como vemos na seguinte
citação do
Diário:
Um jovem que viera comigo ensinava entre 30 e 40
crianças a ler, escrever e contar. Antes da escola de
manhã, e depois da escola à tarde, ele catequizava a
classe inferior, e tentava fixar algo que disse, na
compreensão. Nos sábados à tarde, eu catequizo todos. O
mesmo faço aos domingos, antes do culto da noite. E na
Igreja, logo depois da Segunda Lição, um número
escolhido delas tendo repetido o catecismo, tento
explicar e reforçar aquela parte, tanto a eles como à
congregação.
Fitchett nos conta um incidente que
revela muito do caráter do jovem anglicano. Na escola,
os alunos mais pobres iam descalços, e os outros viamnos
com desdém. Para livra-los desse orgulho, o próprio
Wesley foi por algum tempo descalço.
Depois de devidamente preparados, Wesley
admitiu quato crianças à Mesa do Senhor no dia de
Pentecostes de 1737. Comenta no Diário. “Espero que o
seu zelo tenha despertado muitos que neste tempo, o
Espírito de Deus estava se movendo sobre as mentes de
muitas crianças. Começaram a atender mais às coisas
faladas tanto em casa como na Igreja, e uma notável
seriedade apareceu no seu agir e conversar”.
III. Escolas e Orfanatos
Já tivemos ocasião de notar que Wesley
visitara, e ficara profundamente impressionado pelos
orfanatos de Halle e Herrnhutt. Ele transcreveu um
“extrato da Constituição da Igreja dos Irmãos Moravianos
de Herrnhutt, apresentado à ordem teológica de
Wirtemberg, no ano de 1735”. O décimosegundo parágrafo
trata do seu orfanato.
No orfanato, mais ou menos 70 crianças
são criadas separadas conforme o sexo, além de que,
algumas pessoas experimentadas são nomeadas para
consultar com os pais na educação dos filhos. Para
ensinar-lhe o cristianismo, usamos o catecismo de
Lutero, e estudamos para corrigir as vontades bem como a
sua compreensão, achando que quando a vontade se move,
aprendem mais em poucas horas do que em muitos meses de
outra forma. As criancinhas instruímos principalmente
por meio de hinos, onde
descobrimos que as verdades mais
importantes são insinuadas em sua mentes.
O Metodismo na Inglaterra se organizou em
redor de três cidades, formando um triângulo: Bristol,
Londres e Newcastle-on-Tyne.
Em todos esses centros, estabeleceram-se
sociedades fortes, com propriedades amplas, tendo
acomodação para os pregadores, salões que comportavam
grandes
auditórios, salas para as classes,
círculos, etc. E, em todas as localidades havia escolas
onde as crianças eram ensinadas, e, até um certo ponto,
hospedadas. Além das crianças que recebiam instrução no
chamado “Salão Novo” de Bristol, bem perto se
estabeleceu a escola Kingswood para os filhos dos pobres
mineiros de carvão, que se tornaram tão importantes na
vida do Metodismo no seu começo.
A Escola Kingswood se tornou o objeto de
um afeto invulgar; causou-lhe grandes desapontamentos e
não poucas lágrimas; porém o seu amor e interesse neste
empreendimento mantiveram-se firmes até o término da sua
carreia. Whitefield havia sido o primeiro pregador entre
os mineiros de Kingswood, ganhando muitas vidas para
Cristo. Logo percebeu e necessidade para estabelecer uma
escola para seus filhos, e iniciou uma campanha
financeira. Porém, como já mencionamos, ele partiu logo
deixando a pregação nas mãos de João Wesley; também
entregou-lhe o pequeno fundo e a responsabilidade de
realizar a obra da construção da escola. Um dia o Dr.
Church disse a Wesley, “Tu chamas a Kingswood da tua
própria casa.” Wesley
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