|
A Obra Prima
Era um grande pintor...
Diante da galeria de seus quadros,
Cada qual mais real,
mais expressivo, mais cheio de beleza multicor,
Ele notou que estava
ali faltando, um que seria sua obra prima,
Se achasse as cores
puras e o motivo que fixassem, em talento e perfeição,
As idéias que o vinham
torturando no ineditismo da imaginação...
E, cheio desta angústia
incompreendida que vive em nosso peito a soluçar,
Ele sai à procura pela
vida, da deusa inspiradora da arte pura, do motivo
sublime de criar...
Encontrou no caminho um
sacerdote que lhe pergunta: Aonde tu segues?
Aonde? -não sei! ( o
artista pálido responde)
- Vou sem destino para
ver se encontro A coisa que sublima,
O motivo mais belo
deste mundo, para pintar a minha obra prima !..
É muito simples! ( diz
- logo o monge.) à terra. Em qualquer parte, perto ou
longe,
Há sempre alguma crença
alguma igreja, Onde a fé, num cruzeiro simboliza tudo de
bom que se deseja!..
Mas , no templo e na fé
que procurou, a inspiração o artista não achou.
Prosseguiu a viagem.
Mais adiante, encontrou uma noiva jovem e linda,
E perguntou se ela
sabia ainda onde encontrar a coisa mais perfeita
Que a beleza do mundo
exalta e enfeita.
É o amor! ( ela
afirma.) _ o amor perdoa; e encanta a vida num sorriso
em flor;
Santifica no bem
qualquer pessoa e faz da terra um céu renovador!...
Mas a visão do amor,
banhada em luz, à inspiração o artista não conduz.
Seguindo além, cruzou
em seu caminho um soldado, que exausto,
Regressava dos campos
das batalhas desiguais;
Fez-lhe a mesma
pergunta, de mansinho; e ele responde:_ meu amigo, é a
paz!...
Paz que é descanso e
fonte de alegria; que é gladio da justiça e garantia de
mil venturas
Que não murcham mais;
pois, onde existe paz, aá com certeza, a sítese
gloriosa da beleza!
Mas no mundo de lutas,
perseguida, o artista viu a paz fugir da vida...
A casa regressando,
conjectura: A fé... O amor... A paz... Como encontra-los?
E como num só quadro
conjugá-los na máxima expressão da formosura?
Mas, ao entrar no
abrigo da família, viu a fé a luzir no olhar do filho;
No sorriso da esposa o
amor cantava; e, nas horas de repouso ou de vigília,
A paz, divina e bela
fulgurava... e, dessa orquestração de cor e brilho,
Ele pintou um quadro
singular, em que a coisa mais bela deste mundo
Era a doce harmonia do
seu lar. e o lar, que a fé, o amor e a paz sublima,
Foi do artista afinal,
sua obra prima.
|