|
MEMBRO DA IMW COHAB II FARÁ INICIAÇÃO CIENTÍFICA EM UNIVERSIDADE
SOBRE LUTERO
O estudante do curso de História da Universidade Camilo Castelo
Branco (UNICASTELO) na cidade de S.Paulo Edson Douglas de
Oliveira irá realizar a apresentação de sua monografia de
Iniciação Científica sobre o tema “A Transição do Pensamento
Medieval para o Moderno na Obra de Martinho Lutero”, a ser
realizada no mês de maio em data ainda a combinar com aquela
instituição. O noticiarista da igreja local conversou com o
estudante que conta suas expectativas e as razões pelas quais se
decidiu a realizar essa pesquisa e o papel da obra de Lutero no
meio pentecostal brasileiro em geral, particularmente no
wesleyano:
IMW Cohab II
– o que lhe levou a se decidir em pesquisar sobre Lutero?
Edson
– tudo começou no segundo semestre do meu curso de História
quando fui me informar acerca de uma dúvida metodológica que
havia entre os alunos sobre se teríamos ou não o Trabalho de
Conclusão de Curso (TCC) já que, por termos tido a matéria de
Metodologia de Práticas e Técnicas de Pesquisa no primeiro
semestre, era de se presumir que teríamos de fazer esse
trabalho. Contudo, a coordenadora do curso me informou que não
teríamos TCC e que se quisesse desenvolver alguma pesquisa
poderia fazer Iniciação Científica já que a universidade
disponibilizava essa possibilidade. A diferença é que esse tipo
de trabalho não seria apresentado apenas a uma banca, mas a toda
universidade, num evento que se realiza geralmente no primeiro
semestre, e da qual participam trabalhos de outros cursos. Então
decidi apresentar a Iniciação Científica e antes do segundo
semestre comecei a procurar algum tema de pesquisa.
Em princípio, pensei em escrever uma história sobre a Igreja
Metodista de Itaquera, aqui em S.Paulo mesmo, uma das mais
antigas dentre as denominações evangélicas da nossa região
(1915) ou talvez mesmo a mais antiga. Só que eu já estava lendo
textos de Lutero e percebendo a dificuldade que teria de
recolher material avulso – especialmente documentos – de uma
igreja que eu não conheço e estudar uma obra que já está em boa
parte disponível em português, optei por falar de Lutero já que
o material de pesquisa está mais facilmente disponível,
inclusive em português.
IMW Cohab II
– Você então já terminou sua pesquisa.
Edson
– bem, o texto principal já está concluído. Conclui no quarto
semestre quando a coordenação do curso informou que poderíamos
realizar projetos de pesquisa que seria uma espécie de
preparação para no futuro o TCC ser implantado no curso, mas aí
o meu projeto já estava com a pesquisa em andamento. Então
preferi permanecer na Iniciação Científica. Atualmente só faço
retoques e atualizo e bibliografia.
IMW Cohab II
– por que escolheu trabalhar sobre Lutero e não sobre Wesley?
Edson
– porque Lutero é bem pouco conhecido no meio pentecostal.
Sabe-se tão pouco de Lutero que achei que seria mais
interessante falar sobre ele. Só conhecemos Lutero porque ele
escreveu as 95 Teses e rompeu com a Igreja Católica, esse
conhecimento é muito superficial e não se avança muito além. Às
vezes isso é até reproduzido em textos históricos como os que eu
pesquisei sobre a História dos Batistas no Brasil do J
Reis Pereira e a História das Assembléias de Deus no Brasil
do Emílio Conde, que contam uma visão muito superficial e as
vezes tendenciosa de Lutero sem considerar o tempo e o espaço
histórico em que ele se acha. Sem entendermos esses elementos
fica difícil falar sobre ele. Sobretudo os batistas têm o hábito
de dizer que ele não fez uma reforma completa, mas esquecem que
o projeto de reforma não é o de fazer uma igreja, mas tornar a
igreja já existente algo parecido com o que foi o cristianismo
primitivo.
Além do mais, Lutero preconizava uma forma de governo
eclesiástico que muito se assemelhava ao deles, onde a
congregação escolhia seus pastores e estes os bispos, conforme a
carta que ele enviou à municipalidade da cidade de Praga em
1523, (reproduzida no vol VII das Obras Selecionadas de Martinho
Lutero publicada pela Comissão Interluterana de Literatura)
então é complicado de dizer que ele não foi um homem de certo
modo moderno em seu tempo, só não devemos pensar nas
perspectivas da reforma de Lutero segundo o nosso ponto de
vista. Devemos pensar na sua reforma como conseqüência das
questões que ele levantou na sua época que é um tempo em que ele
está muito perto do mundo medieval, mais perto do que se
imagina. Ou seja: para entender Lutero é preciso olhar para a
Idade Média, não para o nosso presente. Também não é verdade que
a Reforma lançou as bases do mundo moderno, como se tivesse
criado as noções de liberdade do indivíduo e livre pensamento,
pelo menos não do ponto de vista de Lutero. Primeiro, porque
Lutero não concebe essas idéias, isso decorre do Iluminismo da
filosofia do século 18 e não da reforma. E segundo porque Lutero
não tem a mesma concepção de indivíduo que nós temos, ele vive
num tempo em que boa parte dos camponeses alemães são servos e
não há condenação a esse sistema. Senão entendermos o tempo de
Lutero não podemos entender sua obra.
Também há quem critique Lutero por não ter tido preocupação com
missões. Essa acusação não tem sentido porque o movimento
missionário moderno começa com os pietistas do século 18 e não
com a reforma. Nem Lutero, nem Calvino tinham essa preocupação,
o primeiro porque sua ênfase está em pregar e ensinar a Palavra,
como ele sempre enfatiza, em restabelecer as bases da comunidade
primitiva e o segundo porque quando criou a Academia de Genebra
em 1560 não foi para formar missionários no sentido pleno do
termo, mas pregadores para comunidades já constituídas. No
momento presente da Reforma a preocupação presente é com as
comunidades locais e não com as transculturais. A formação de
pastores e pregadores para as comunidades já constituídas é
dinâmica da reforma, ao passo que a formação de pregadores para
comunidades não-cristãs é preocupação do pietismo, e para ser
mais exato, só se torna realidade após a constituição da Missão
Halle-Dinamarca em 1706. É com esse evento que se inicia o
movimento missionário.
IMW Cohab II
– Que paralelos podemos estabelecer entre o pensamento de Lutero
e de Wesley?
Edson
– a diferença básica é a doutrina da justificação. A pergunta
que Lutero fazia no século 16 sobre a salvação foi respondida no
decorrer de sua investigação de Romanos (1515) com a
“descoberta” da justificação. Como diz o teólogo alemão Jürgen
Moltmann comentando essa teologia em O Espírito da Vida,
a justificação e a santificação em Lutero estão entrelaçadas
porque o homem é pecador contumaz. Para Lutero, a penitência e a
mortificação da carne são essenciais para se viver na plenitude
uma vida santificada, o crente precisa mortificar-se e
penitenciar-se todos os dias, conforme ele mesmo ensina na
Explicação sobre as 95 Teses (vol I das Obras Selecionadas)
comentando a tese 4 quando afirma que nos penitenciamos a vida
toda (ou como ele diz, “até a entrada no reino”). É também por
isso que em Lutero não existe uma espécie de marco para o início
da vida cristã, o que explica que ainda hoje luteranos e
calvinistas batizam crianças, Em Wesley, a santificação é
sinônimo de regeneração. No debate que ele trava com o conde
Zinzendorf, em 1741 isso é expresso ainda mais com mais clareza
quando Wesley fala que nasce no amor cresce também na santidade,
ao passo que Zinzendorf diz que a santificação e a justificação
são totais, ele é totalmente renovado e totalmente transformado,
ou seja, ele nega que o crente cresça na graça, a criança, em
Cristo é tão pura quanto o pai em Cristo. Esse pensamento resume
a posição de Lutero já que Zinzendorf é um luterano pietista.
Daí a ênfase do velho metodismo – do metodismo inglês do século
18, bem claro – na mortificação da carne. Há uma trilogia
histórica do historiador inglês E P Thompson chamado A
Formação da Classe Operária Inglesa onde, no volume II isso
é bem relatado: os metodistas mortificavam-se brutalmente,
sobretudo na esfera sexual, o que gerava situações que para os
olhos do homem comum, situado fora do metodismo, chegavam a ser
grotescas e cômicas, mas que no fundo, resultavam em padrões de
repressão que se transformavam em verdadeiras prisões para os
crentes iniciáticos ou não. Nesse ponto vejo um ponto de
convergência entre Lutero e Wesley: a santificação vira uma
espécie de Lei que, como tal, pode se aderir pela conversão, mas
que uma vez aderido, pode se transformar em prisão se assumir
uma forma dogmática se a Graça não se manifestar em nossas
vidas, se tudo se transformar em legalismo e farisaísmo
hipócrita.
Mas há ainda uma diferença, até mais expressiva: na concepção de
Lutero sobre justificação está uma das premissas da
predestinação. Só somos justificados uma vez porque a Graça de
Deus é concessão imeritória Dele. Só Deus salva e salvando Ele,
o mesmo Deus nos preserva por Sua vontade ou, como ele diz no
Comentário a Romanos sobre Rm 9.16, só Deus que nos concede a
força para correr, porque não é nossa força que faz coisa
alguma, mas a força dele que Ele nos concede liberalmente. Em
Wesley, a santificação é prática contínua. Como ele salienta no
sermão sobre a perfeição cristã (1741) já, portanto, depois de
Aldersgate e baseado em I João 5.18, o cristão que vive em
Cristo não peca embora ele viva num mundo dominado pelo pecado.
Davi, ainda segundo a visão de Wesley cometeu pecados, mas não é
pecador – no sentido de um homem que desconhece a fé, a graça e
tudo mais – porque senão a Bíblia não o descreveria como um
homem segundo a vontade de Deus. Portanto, Wesley admite a
perfeição cristã na medida em que o Espírito Santo testifica em
nós (isto é, a nosso espírito) que de fato vivemos em santidade.
Lutero jamais afirmaria coisa semelhante. O pecador que pecca
fortiter (peca fortemente), que peca verdadeiros, sólidos,
enormes pecados, como diz ele numa carta a Melanchthon, deve pôr
a sua fé em Jesus Cristo porque assim como Ele venceu o pecado,
venceu também a morte. A responsabilidade cristã em Lutero
alcança a Graça, mas não a santificação.
Também não podemos esquecer que um oceano de diferenças
culturais separam o reformador alemão do inglês. Lutero prega
num país que nem é país, pois a Alemanha só será unificada no
final do século 19. Wesley prega numa Inglaterra que já passou
por esse processo de unificação desde a Idade Média e é, no seu
momento, um país que caminha para ser potência. Boa parte do
público que houve a pregação de Lutero é formada por servos,
isto é, indivíduos que não são livres, mais um público
diversificado de príncipes e burgueses. Em Wesley, a massa de
ouvintes é formada por pequenos burgueses ou artesãos expulsos
de suas terras nos estágios iniciais da Revolução Industrial. A
pregação wesleyana acerca da frugalidade e da rejeição de
divertimentos e de toda sorte de perda de tempo favoreceu a
acumulação de capital pelos pequenos artesãos que viraram
industriais e alavancaram a Revolução Industrial do século 18,
algo que Thompson percebeu também no segundo volume de sua
trilogia já citada. Já Lutero tem uma concepção de trabalho que
poderíamos chamar de fisiocrática, porque, a exemplo dos antigos
economistas dessa escola, pensa na riqueza em termos de posse de
terra. Ele não tem muito apreço pelo comércio e anatematiza o
juro, como deixa claro em seu apelo À Nobreza Cristã da Nação
Alemã (1520) quando faz apologia do modo de produção
agrícola.
IM Cohab II
– existem aproximações entre Lutero e o pentecostalismo?
Edson
– não. O pentecostalismo, como entendemos, é oriundo de quatro
movimentos históricos bem distintos, mas que ao longo dos
séculos irão moldá-lo e lhe dar a forma que conhecemos hoje: o
montanismo do século 3, por sua ênfase na ação do Paracleto e do
dom de línguas, além da presença do ministério feminino na
comunidade; o anabatismo suíço-alemão do século 16, com a
dinâmica do batismo pelo arrependimento, algo que todos os
grandes reformadores (Lutero, Zwínglio, Calvino) vão abominar
por completo; o pietismo alemão do século 17 que dá prioridade à
experiência interior, no cristianismo do coração, e o metodismo
que resgata a santificação. Essas são as bases
histórico-teológicas do pentecostalismo. Em geral, tudo o que
Lutero abomina é visto como prática corriqueira no
pentecostalismo (e também em outros grupos) e vice-versa. Ele
não vê problemas com as imagens, pois entende que elas tem uma
finalidade cultural e educativa, mas o protestantismo de Calvino
e o pentecostalismo são iconoclastas. Ele não aceita os
“entusiastas” de Thomas Müntzer e Andreas Karlstadt entre outros
motivos porque eles crêem na revelação profética. Müntzer e
Karlstadt foram reformadores radicais, reformadores que
procuraram ampliar a reforma sem o aval do próprio Lutero que na
sua confissão de fé de 1528 se posiciona totalmente contra os
iconoclastas, isto é, aqueles que querem abolir todas as imagens
da liturgia e do culto. O dom de línguas para Lutero, segundo o
seu escrito sobre a Ordem do Culto na Comunidade (1523), quando
comenta a passagem de 1 Co 14.26 significa primeiro a leitura da
Palavra para a edificação da comunidade, e em segundo
interpretar determinada passagem da Escritura, um entendimento
que passa, desse modo, muito longe do pentecostalismo, mesmo
aquele que se declara ”clássico”. Temos, portanto, duas
afirmações bem distintas da significação que damos hoje a esse
texto: Lutero diz que o falar em línguas é a leitura do texto já
que em sua época grande parte da população era analfabeta; além
disso, considerando as línguas originais e o uso do latim que
permanece mesmo após a Reforma (e mesmo ainda nos dias de
Wesley) esse “falar em línguas” é entendido como trazer o texto
bíblico para a língua comum do povo, enquanto o interpretar e o
“profetizar” é explicar o texto bíblico à comunidade, para que
ele edifique a comunidade. Nessa concepção nós vemos como um
determinado texto bíblico pode ser lido de diferentes modos no
tempo e no espaço, sob conjunturas psicológicas e teológicas
igualmente distintas.
| |
 |
| |
Edson Douglas de oliveira
é professor da Escola Bíblica Dominical
|
|