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A ECO-TEOLOGIA E A ECOLOGIA
Pr. Renato Alves Neves
Possivelmente
influenciado por esta “onda verde” que recebe uma atenção
especial neste nosso período eleitoral/2010, gostaria de
compartilhar uma breve reflexão sobre o assunto e apresentar uma
gama de versículos que de certa forma, orienta-nos a ter uma
atitude de preservação digamos, ecologicamente correta da
natureza.
Considero não ser um erro afirmar que O pensamento ecológico
esta muito próximo do pensamento cristão de harmonia, do ponto
de vista, espiritual, físico e emocional, proporcionando um
ambiente de irmandade, de relacionamentos saudáveis e amistosos
e é possível ver toda a existência na Terra como uma teia
interligada e interdependente. Tanto ecólogos quanto cristãos
devem estar preocupados com uma vida digna para si e para seus
semelhantes.
O pensamento ecológico prevê um mundo em paz, com uma justa
divisão de oportunidades e de acesso aos recursos ambientais,
prevê o fim da miséria. A Convenção da Biodiversidade reconhece
que os países industrializados auferiram as vantagens de
apropriar os recursos ambientais dos países pobres, e que agora
é preciso mecanismos para reverter o quadro e elevar a
participação dos países pobres na divisão.
Os principais documentos que representam o pensamento ecológico,
a Carta da Terra, a Agenda 21, a Convenção da Biodiversidade e o
Protocolo de Kioto (além de inúmeros outros acordos
internacionais) são baseados nos mesmos princípios – de que não
podemos agora degradar o meio ambiente comprometendo a qualidade
de vida (ou mesmo a sobrevivência) das gerações futuras.
Também está prevista a estabilização do tamanho da população no
Planeta, de forma a equilibrar o uso dos recursos naturais e a
preservação do ambiente.
Chamo a sua atenção para pontuar inicialmente que qualquer
discussão cristã sobre ecologia deve ser o conceito bíblico de
DEUS como Criador. De acordo com Gênesis 1, o universo
como um todo, e em especial a terra, agraciada com o maravilhoso
dom da vida, é obra das sábias e poderosas mãos de DEUS
(ver Sl 136.3-9; Pv 8.22-31). A natureza, em toda a sua
complexidade e beleza, testifica sobre a grandeza e a bondade do
Criador (Dt 33.13-16; Sl 104.10-24,27-30).
São muitas as passagens bíblicas, algumas de grande
sensibilidade poética, que visam disciplinar, orientar como
devemos nos comportar a respeito e admiração pelos encantos do
mundo natural (Jó 40.15-19; Sl 65.9-13; 147.7-9,15-18; 148.1-10;
Ct 2.11-13; At 14.17).
Com Jesus também vemos em seus ensinos, muitas referências à
natureza para exemplificar o cuidado providente de DEUS (Mt
6.26,28; 13.31-32; Lc 12.6). Nos anúncios proféticos do novo
tempo que DEUS irá criar as referências ao mundo natural
ocupam um lugar de grande destaque (Is 11.6-8; Ez 47.7,12; Ap
22.1-2).
Ainda que DEUS tenha feito o ser humano como o coroamento
da sua obra criadora, ele não lhe conferiu o direito de abusar
da terra e de seus recursos. Fica implícita em toda a Escritura
a responsabilidade humana de cuidar e guardar do “Jardim do
Senhor” (Gn 2.15). O conceito de mordomia se aplica de modo
especial nessa área – a terra e suas riquezas pertencem a
DEUS, que as confia ao homem para que as administre com
cuidado e sabedoria. O pecado humano gerou alienação em relação
a DEUS e à natureza. Por isso agora a criação “geme e
suporta angústias” até que seja “redimida do cativeiro da
corrupção” (Rm 8.21-22). Os cristãos têm o dever inescapável de
utilizar criteriosamente as coisas que DEUS criou com o
propósito de dar-lhes vida, sustento e alegria.
Mas qual a responsabilidade do cristão com relação à ecologia?
Apenas para fundamentarmos a necessidade e urgência de uma
crítica “cristã-teológica” com relação ao descaso com o meio
ambiente citamos Gênesis 1.24-31 (NTLH)
A CRIAÇÃO DOS SERES VIVOS
21 Assim Deus criou os grandes monstros do mar, e todas as
espécies de seres vivos que em grande quantidade se movem nas
águas, e criou também todas as espécies de aves. E Deus viu que
o que havia feito era bom.
22 Ele abençoou os seres vivos do mar e disse: —Aumentem muito
em número e encham as águas dos mares! E que as aves se
multipliquem na terra!
23 A noite passou, e veio a manhã. Esse foi o quinto dia.
24 Então Deus disse: —Que a terra produza todo tipo de animais:
domésticos, selvagens e os que se arrastam pelo chão, cada um de
acordo com a sua espécie! E assim aconteceu.
25 Deus fez os animais, cada um de acordo com a sua espécie: os
animais domésticos, os selvagens e os que se arrastam pelo chão.
E Deus viu que o que havia feito era bom.
26 Aí ele disse: —Agora vamos fazer os seres humanos, que serão
como nós, que se parecerão conosco. Eles terão poder sobre os
peixes, sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e
sobre os animais que se arrastam pelo chão.
27 Assim Deus criou os seres humanos; ele os criou parecidos
com Deus. Ele os criou homem e mulher
28 e os abençoou, dizendo: —Tenham muitos e muitos filhos;
espalhem-se por toda a terra e a dominem. E tenham poder sobre
os peixes do mar, sobre as aves que voam no ar e sobre os
animais que se arrastam pelo chão.
29 Para vocês se alimentarem, eu lhes dou todas as plantas que
produzem sementes e todas as árvores que dão frutas.
30 Mas, para todos os animais selvagens, para as aves e para os
animais que se arrastam pelo chão, dou capim e verduras como
alimento. E assim aconteceu.
31 E Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom. A noite
passou, e veio a manhã. Esse foi o sexto dia.
Fica óbvio neste texto sagrado, que há um propósito claro,
objetivo da harmonia e do desejo de DEUS que o homem
dominasse e mantivesse a terra de forma que está lhe desse o
próprio sustento.
Quando há abuso dos recursos naturais, utilizando-se do
eco-sistema de forma com que ele fique desequilibrado e não
possa mais fornecer a manutenção da vida, a humanidade peca e em
pecado, ou seja, errando o alvo, entra em desacordo com o desejo
de DEUS.
Entendo que a definição mais benquista para desenvolvimento
sustentável é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades
da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as
necessidades das futuras gerações.
É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o
futuro. Essa definição surgiu na Comissão Mundial sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Nações Unidas para
discutir e propor meios de harmonizar dois objetivos: o
desenvolvimento econômico e a conservação ambiental. Esse tipo
de desenvolvimento tende a ser insustentável, pois leva ao
esgotamento dos recursos naturais dos quais a humanidade
depende. Os crescimentos econômicos e populacionais das últimas
décadas têm sido marcados por disparidades. Embora os países do
Hemisfério Norte possuam apenas um quinto da população do
planeta, eles detêm quatro quintos dos rendimentos mundiais e
consomem 70% da energia, 75% dos metais e 85% da produção de
madeira mundial.
Consideremos três pontos:
1. A TERRA ESTÁ GEMENDO ENQUANTO A ALMA CONTINUA “BELA”: (Ec.
2.1-11)
A eco-teologia talvez seja a forma mais adequada de se fazer
teologia em nosso tempo. O conceito de (eco-teologia) é
relativamente novo. Surgiu nos últimos 25 anos, a partir de uma
consciência de alguns teólogos, preocupados com o esgotamento
dos recursos naturais, por conta da ganância humana.
Nesse sentido, a eco-teologia parece reunir subsídios
convincentemente capazes de curar a visão estrábica da teologia
tradicional que sempre procurou DEUS além ou fora da
natureza. Isto é, sempre se preocupou com DEUS, longe, lá
no céu, distante de sua criação.
Talves, nossos líderes no passado, tenham se esquecido da
realidade atual e se concentraram para pregar apenas uma
salvação no “outro mundo”. Isso leva o cristianismo atual a se
distanciar de um importante cuidado com o eco-sistema e esta
falha pode ter dado origem e de ter impulsionado um progresso
com a sua atitude estúpida e suicidamente arrogante em relação
ao meio ambiente.
Olhando o mesmo problema, mas focado no consumismo, a Igreja
prega o Céu além da vida nesta Terra, o consumismo acena com o
Céu na Terra – é o que prometem a publicidade, o turismo, o novo
equipamento eletrônico, o banco, o cartão de crédito etc.
O nosso tempo moderno parece ironicamente, retroceder ao período
da arte que pintava o grotesco. Há uma liturgia cúltica da
(estética=beleza) (hedônica=ensina que o bem supremo da vida é o
prazer) e (narcisística=encantamento com a própria beleza).
Busca-se, avidamente, a eternização do presente; multidões
malham o corpo como quem sorve o elixir (efeito mágico) da
juventude. Morreremos todos, porém, saudáveis e esbeltos.
De algum modo, fazemos leitura semelhante do texto de Ec 2.1-11.
O autor descreve o período de sua vida em que buscava cegamente
e a todo preço o “prazer da vida”. Mesmo que para isso tivesse
que escravizar pessoas. O texto mostra a busca insana do prazer,
e a qualquer custo. Procurou o prazer na bebida: v.3; no
consumismo e na riqueza: v.4-7; na promiscuidade: v.8; na falta
de amor e no individualismo: v.9-10. Infelizmente, esses
ingredientes que juntos formam a base do hedonismo (prazer acima
de tudo) ainda se fazem presente em nosso mundo moderno. Porém,
em nosso tempo, a tecnologia chegou ao topo, com poder de
agredir e explorar a terra de forma inimaginável. É por isso que
não se dá para acreditar nesses tais “projetos de
desenvolvimento sustentável”, até porque, quem os faz não tem
interesse algum de abdicar-se do luxo e do aparato
“tecnologicamente correto”. Portanto, ao meu modo de ver, a
única forma para se falar de desenvolvimento sustentável a luz
da Bíblia, deve ser a partir da consciência cristã de que
devemos todos “frear radicalmente o nosso ímpeto consumista”.
Até porque, o autor de Eclesiastes nos ensina que depois de
experimentar tudo isso, chegou à conclusão de que tudo era
ilusão.
2. O CRER NA PROVIDÊNCIA É MARCA CARACTERÍSTICA DA VIDA CRISTÃ:
(Mt. 6.25-34)
É comum encontrar crentes em nossas igrejas que conheçam o texto
de Mt 6.25-34; muitos de nós até decoram e recitam poeticamente
este texto. Porém, é também comum perceber que quase todos nós
temos dificuldades para aplicá-lo na prática da vida cristã.
Isto é sinal de que, apesar de nossa tradição reformada, que
tanto ensina sobre a providência divina, na maioria das vezes
nos vemos correndo ansiosamente pelos recursos materiais. A bem
da verdade nós andamos ansiosos o tempo todo porque queremos
satisfazer nossos desejos de consumo. Criamos a todo momento
“necessidades”, que quase sempre, são banais.
Contudo, conscientes ou não, voluntários ou não, satisfeitos ou
não, teremos de rever nossa relação com o cosmos, especialmente,
com a nossa casa (O Planeta Terra). O teólogo Leonardo Boff
compara nosso tempo à figura de uma nave espacial em pleno vôo.
Para ele, essa nave tem recursos limitados de combustível, de
alimentos e de tempo de transcurso. 1% dos passageiros viaja na
primeira classe com superabundância de meios de vida. 4% na
classe econômica com recursos abundantes. Os 95% restantes estão
juntos às bagagens no frio e na necessidade. Pouco importa a
situação social e econômica dos passageiros. Todos correm ameaça
de morte pelo esgotamento dos recursos da nave. Todos terão o
mesmo destino dramático: ricos, remediados e pobres, caso não
haja um acordo de sobrevivência para todos indistintamente.
Desta vez não há uma arca de Noé que salve alguns e deixe
perecer os demais.
Assim, a eco-teologia assume o caráter de urgência e
contemporaneidade, sugerindo-nos a necessidade de se fazer
teologia a partir de um novo modelo, ou, um novo objeto, que a
rigor, deve ser a terra; ou seja, precisamos lembrar de que
DEUS está presente também na natureza. Aliás, essa é
exatamente a mensagem de muitos salmos, mostrando que DEUS
se faz presente em toda a natureza (Sl 19). Não podemos mais,
face à irrupção da morte de nossa mãe terra e consequentemente
de todos nós, perpetuarmos a atitude reticente de passividade.
Ou, como diz a música de Zé Geraldo: tudo isso acontecendo e
eu aqui na praça, dando milho aos pombos. É tempo de
decisão! Paulatinamente isso vem ocorrendo. Muitas vozes somam
hoje imenso clamor, alcançando já espaços públicos com
manifestações populares. Críticas e culpados ecoam por todo
lado. Calcula-se que os 13 países mais industrializados produzam
80% de toda poluição mundial.
Contudo, já está superada a fase de encontrar culpados pela
degradação da natureza. É verdade que os vilões da natureza são
os mega-produtores de bens e serviços; mas, eles não teriam
necessidade de produzir tanto se não houvesse demanda.
Precisamos reconhecer que estamos todos contaminados pelo vírus
do consumismo.
3. CRER NA SALVAÇÃO É CRER NA REDENÇÃO DE TODAS AS COISAS: (CL
1.13-20)
É fundamentalmente bíblico o ensino de que a salvação
proposta em Jesus Cristo não visa apenas a alma humana. O texto
de Cl 1.13-20 mostra claramente que a salvação em Cristo
alcançará até mesmo as regiões celestiais, ou cósmicas. Outro
texto do Apóstolo Paulo que evidencia esse ensino é o de Rm
8.19-23. Há ainda a profecia do Novo Céu e na Nova Terra,
anunciada por Isaías 65.17-25; e ainda o mesmo sentido repetido
em Ap 21.1-8. É nesse sentido que a eco-teologia encontra seu
espaço em nosso tempo. O conceito bíblico-teológico da redenção
se mostra como relevante objeto de releitura, na tentativa de
olhar a salvação proposta em Jesus Cristo muito mais além do que
salvação espiritual ou i-material. A redução moderna da salvação
à bem-aventurança da alma ou à genuinidade da existência humana
entregou a natureza inconscientemente à desordenada exploração.
Ao anunciar o Cristo (Cósmico=que redime todas as coisas), o
poder redentor não atinge apenas a mente e a moralidade humana,
mas toda a natureza; do mesmo modo como a história, também a
natureza é “palco da graça e espaço da redenção”.
É nesse sentido que o conceito de redenção cósmica se mostra tão
atual. De uma vez por todas ele tanto destrói o doentio modelo
platônico de salvação da alma apenas, quanto promove a idéia do
novo Céu e da nova Terra. O fundamento absoluto de nossa fé
cristã está da doutrina da morte e da ressurreição em glória,
mas também corporal de Jesus.
DEUS
não seria o criador de todas as coisas se não quisesse a
redenção de todas as coisas. Segundo ele, a visão da redenção
cósmica por meio de Cristo, portanto, não é uma especulação, mas
surge de forma lógica da cristologia e da antropologia. Se
faltassem esses horizontes, o DEUS de Jesus Cristo
não seria criador do mundo e a redenção se tornaria mito
gnóstico de ódio ao corpo e ao mundo.
Ao contrário do que muitos pensam essa releitura não significa
diminuir o atributo criador e redentor de DEUS; ao
contrário, é afirmá-lo ainda mais, porém, dentro de um novo
espectro. Desta forma, parece-me que a tarefa mais humilde da
eco-teologia deva ser a de trazer Deus de volta para a natureza;
é isso que poderíamos chamar de (panenteísmo=Deus criou tudo e
se faz presente em toda a sua criação); ou, a criação é o teatro
da glória de DEUS. Deste modo, o olhar místico,
contemplativo e admirável para a natureza, obra das mãos do
criador, deve causar em nós a integração entre todas as formas
de vida com o cosmos. Certamente essa atitude pacífica entre
humanos e natureza, freará o nosso desejo ávido de “consumir”.
Considerações finais:
Portanto, enquanto esperamos pelo cumprimento profético do novo
Céu e da nova Terra, que tal voltarmos nossos desejos para as
coisas simples e prazerosas da vida ingênua? Acho que cairia bem
o conselho do Eclesiastes:
Pr. Renato Alves Neves
Bibliografia:
·
RUBIO, Alfonso García. Unidade na Pluralidade. São Paulo,
Paulinas, 1989
·
BETO, Frei. In: Mysterium Creationis. São Paulo,
Paulinas/Soter, 1999, Artigo: Espiritualidade holística
·
BOFF, Leonardo. In: Sarça Ardente. São Paulo, Paulinas/Soter,
2000, artigo: O pobre, a nova cosmologia e a libertação –
como enriquecer a Teologia da Libertação.
·
BOFF, Leonardo. ECOLOGIA, grito da terra, grito dos pobres. São
Paulo, Ática, 1995
·
MOLTMANN, J. O Caminho de Jesus Cristo. Petrópolis,
Vozes, 1994
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