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O RELATO
DE UM EX-TRAPALHÃO
Dedé relembra os momentos de dor durante
internação
Depois de passar dez dias internado no Hospital Barra
D'Or por conta de uma diverticulite no intestino grosso,
Dedé Santana voltou aos estúdios do Projac para gravar
"As Aventuras do Didi" na última quarta-feira, 15. Na
manhã de quinta-feira, 16, antes de entrar para mais um
dia de gravação, o humorista recebeu a equipe de
reportagem do UOL para uma entrevista
exclusiva. Dedé chegou apenas 15 minutos após o horário
marcado, mas pediu desculpa pelo atraso. "No meio do
caminho, encontrei com o (diretor) Guto Franco e tive
que parar para falar com ele. Nos conhecemos há muitos
anos e tenho um carinho enorme por ele. Guto é filho do
Moacyr Franco", explica. A entrevista começou e Dedé
relembrou a época em que ficou doente e chegou a ser
internado no CTI. "O pior momento foi quando recebi a
notícia que estava com diverticulite. Lembrei logo do
(político) Tancredo Neves, que morreu assim. Pensei que
não iria mais ver meus filhos", lembra ele, que é pai de
oito.
Dedé começou a passar mal no dia 27 de maio, durante uma
gravação do humorístico. "Tinha uma cena em que eu caía
e o Didi [Renato Aragão] me levantava. A crise começou
na queda. Renato percebeu que eu não estava bem e me
levantou com cuidado. Eu estava tonto e saí do Projac
direto para o hospital", diz. Apesar de ter sido muito
bem tratado na unidade, o humorista afirmou que não
guarda boas recordações do local. "Lembrança de hospital
nunca é boa. Me colocaram com uma equipe médica de
primeira, mas eu não quero voltar pra lá não. Era cano
enfiado em tudo quanto é lugar. Até em buraco que nunca
conheci nesses meus 75 anos de existência", rememorou,
aos risos. Passado o susto, Dedé mostrou que a
internação não o fez perder o bom humor.
Você ficou no CTI, mas passou a maior parte do
tempo consciente. Como eram os seus dias?
Dedé - No começo estava
inconsciente porque fiquei com anemia. Mas é horrível
estar consciente porque você não pode se mexer. Fiquei
sem comer e sem beber água por dias. Apenas molhavam a
minha boca com um algodão. Quando eu lembro, me dá até
sede. Ficar consciente é ruim porque a gente vê muita
coisa. Vê gente morrendo... Mas também me emocionei
porque tinha um senhor que me viu e falou com a
enfermeira: "Puxa... O Dedé... Meu Deus... Eu vou orar
por ele". E ele estava muito pior do que eu, com câncer
em estágio terminal. Quando fui fazer exames, ele disse
pra enfermeira: "Graças a Deus o Dedé saiu...". E a
enfermeira respondeu que eu só estava indo fazer um
exame e já ia voltar.
Qual foi o pior momento?
Dedé - O pior momento foi quando
pensei que não iria mais ver meus filhos. Tenho oito
filhos e oito netos. Tenho três filhos em Santa Catarina
com a minha mulher, Christiane Bublitz, que são os mais
novos. O nome de todos eu lembro, mas as idades... Sou
pai do Átila, Ayede, Ayesca, Aimê, Manfried Júnior,
Marcos, Yasmin e Maria Leone, que é a mais velha.
Então você pensou na possibilidade de morrer?
Dedé - Dei uma fraquejada algumas
vezes. Quando o médico me disse que era diverticulite,
me lembrei do Tancredo Neves, que morreu com essa
doença. Mas o apoio que eu tive da Globo foi
fundamental.
Você se tornou evangélico em 1995 por causa de
um problema no coração. Como a religião te ajudou em sua
última internação?
Dedé - Quando me converti, eu era
da Assembleia de Deus. Hoje sou membro da Igreja
Quadrangular. Sempre que eu posso eu vou à igreja. Me
converti por problemas cardíacos. Fiz todos os exames
agora no hospital e meu coração não tem nada. Meu único
problema doi mesmo a diverticulite no intestino grosso.
Me converti também porque eu era muito maluco, muito
mulherengo e tal. Agora isso mudou. sou uma pessoa
totalmente dedicada à minha família.
Você é pastor?
Dedé - Não sou pastor. Ser pastor é
um chamado especial de Deus e eu não tive esse chamado.
Tem medo da morte?
Dedé - Não tenho medo da morte não.
Ela é uma consequência da vida.
Qual foi a primeira coisa que você fez ao chegar
em casa?
Dedé - Fui correr atrás dos meus
filhos. Eu não estava acreditando que estava chegando em
casa. Foi incrível. Meu filho Marquinhos apareceiu com
umas manchas e foi internado em um hospital lá em Santa
Catarina. Minha mulher queria vir pra cá ficar comigo e
eu dizia que não precisava porque já ia ter alta. Quando
ela me ligou avisando que o Marquinhos estava bem, eu
disse: "Então vem pra cá porque acho que eu vou demorar
a ter alta". Ela quase me matou.
Você recebeu muitas mensagens positivas de fãs
enquanto esteve internado. Acha que essa energia ajudou
na sua recuperação?
Dedé - A energia das pessoas chegou
até mim. Minha saída do hospital fui fruto de muita
oração. Tinha muita gente orando por mim. Aliás,
gostaria de agradecer porque não pensei que eu fosse tão
querido assim... Principalmente pela classe circense,
que me mandava e-mails e me telefonavam. E também recebi
muito apoio da classe artística. O Sérgio Mallandro foi
me visitar. O Tiririca me ligou de Brasília. O Renato
Aragão foi me ver. Ele era o mais preocupado de todos.
O que você pediria hoje a Deus?
Dedé - Queria viver mais um
pouquinho. Minha filha Yasmin tem 14 anos e queria vê-la
chegar aos 20. A Yasmin, que está em Santa Catarina,
quer seguir a carreira artística. Tentei tirar todos os
meus filhos da arte. Porque a gente sofre muito. É uma
vida muito instável. Entre a prole, cada um tem o seu
negócio, toca suas coisas. Mas a Yasmin quer ser atriz
de todo o jeito. Eu falei que ela precisa primeiro
estudar e ela disse que vai ser como o Renato Aragão:
advogada e atriz.
Você não ficou com ciúme da sua filha se
espelhar no Renato Aragão e não no pai?
Dedé - De jeito nenhum. Yasmin
sempre me pediu para trabalhar com o Didi. Eu explicava
que era questão de contrato. Eu estava no SBT e ele na
Globo. Mas Renato e eu nunca ficamos sem nos falar. A
gente se ligava no Natal, nos aniversários e nas outras
datas importantes.
Como está sua rotina hoje?
Dedé - Tomo só um remédio que tem
ferro. Digo que estou tomando ferro. É meio esquisito de
falar, né? [risos]. Fora isso, não tenho restrição
nenhuma. Moro em Itajaí, no Sul, e venho para o Rio às
terças-feiras. Gravo no Projac às quartas e quintas e,
na sexta, volto para Santa Catarina. Tenho muitos amigos
que são donos de circo lá e, às vezes, me apresento nos
sábados e domingos. O público levanta, fica de pé para
me ver. Faço tudo normal. Hoje mesmo dei uma corrida na
praia antes de vir cá. De carro, é claro... [risos].
Como foi voltar a gravar?
Dedé - Foi maravilhoso. Minha volta
foi emocionante porque meu camarim estava com muitas
flores enviadas pela equipe do programa. Eu não sabia
que era tão querido entre o pessoal.
Você veio de uma família circense. Sua estreia
no circo aconteceu com apenas três meses de vida. Conte
o que você sabe sobre essa estreia.
Dedé - Diz meu pai que foi o meu
primeiro aplauso. Antigamente, tinha uma mistura de
circo com teatro. Na apresentação, fiz uma peça chamada
“A Cabana do Pai Tomás”. Minha mãe fazia uma escrava e
ficava com um bebê nos braços. Quem fazia era um boneco,
mas como eu estava lá, meu pai resolveu me colocar no
colo dela, que fazia uma escrava. Na hora em que me
tirariam do colo dela, estava tudo preparado para um LP
tocar um choro de criança. Mas nem precisou usar. Quando
me tiraram do colo da minha mãe, eu chorei e os artistas
começaram a rir. O público chorava e não entendia. Aí,
meu pai explicou que havia um disco para tocar com um
choro de bebê.
Sua família é descendente de ciganos. De onde
saiu o nome Manfried?
Dedé - É um nome alemão. Tenho
sangue de alemão por parte de um amigo íntimo do meu
pai. Não sei se você entendeu... [risos]
Juro que não. Me explica, por favor?
Dedé - É que a minha mãe, quando
estava no hospital para me ter, precisava de uma
transfusão de sangue e a única pessoa que tinha sangue
compatível era esse alemão, Manfried. Meu pai resolveu
homenagear o moço pelo seu gesto.
O que Renato Aragão representa na sua vida?
Dedé - Nós começamos juntos. Até me
emociono porque tudo começou com a dupla Dedé e Didi, em
1965. O amigo é um presente que a gente nos dá. E o Didi
é um grande presente meu. Consegui realizar dois grandes
sonhos da minha vida através dele. Eu vinha do circo.
Ele escrevia muito bem. Eu queria muito dirigir cinema.
Eu fiz curso, trabalhei em edição, dirigi um filme em
preto e branco em São Paulo, mas não tinha dirigido um
filme grande. Um dia, o Renato me disse que eu ia
dirigir "Os Trapalhões e o Mágico de Oroz" [1984]. Dei
muita sorte porque foi um dos mais elogiados. Aliás, o
primeiro beijo da Xuxa no cinema foi comigo. Eu era
noivo dela nesse filme. Foi boca a boca.
E foi bom?
Dedé - Nem me lembro. Eu estava
nervoso. Ela também. Chovia muito. Era uma cena
chovendo.
Foi um "beijo técnico"?
Dedé - Eu nem sei o que é que foi
[risos].
Como era na época em que "Os Trapalhões" era
exibido na TV? Você sente saudade do Zacarias e do
Mussum?
Dedé - Era maravilhoso. Com o Didi,
ninguém podia chegar de mau humor. Se eu chegasse, em 15
minutos, já estava rindo com ele. Digo que o único ator
dos Trapalhões era o Zacarias. Didi e Dedé sabem os
truques de fazer rir. E Mussum era um comediante nato.
Ele fazia piadas no tempo, fora do tempo e todo mundo
ria. A gente ria em cena.
Além da direção de "Os Trapalhões e o Mágico de
Oroz", qual foi o outro grande presente que o Renato
Aragão te deu?
Dedé - O outro foi a minha volta
para a Globo. Um dia, em 2008, ele me ligou e perguntou
se eu gostaria de voltar. Respondi que sim e ele me
disse que ia tentar porque não era o dono da Globo.
Passou um dia, e ele não ligou. E eu naquela ansiedade.
Depois, ele me ligou e disse que tinha uma notícia não
muito boa. Eu disse: "Tá. O importante é que você
tentou". E Ele: "Não. A notícia é que você já está
contratado pela Globo e está recebendo seu salário desde
o dia primeiro". E já era dia 20.
A empresa do Renato Aragão está sendo processada
pela Fernanda Brasil, a menina que protagonizou o filme
"A Filha dos Trapalhões". Ela alega que não recebeu
direitos de imagem pela exibição do filme na TV e o
longa acabou virando DVD...
Dedé - Não sei como foi feito o
contrato dela. Mas lembro que no meu contrato, ganhei o
salário e abri mão dos direitos de exibição e imagem.
Todo filme é feito assim.
Falando em contrato, até quando vai o seu
contrato com a Globo?
Dedé - Eles chamam de contrato
permanente. Nele, há um cláusula que diz que, se eu
quiser sair da emissora, preciso avisar com um ano de
antecedência. E se eles quiserem me dispensar também
avisam um ano antes. Mas estou muito feliz aqui. Como
moro no Sul, eles dão passagem para o Rio e fico
hospedado em um hotel cinco estrelas. A emissora é fora
de série.
Por que você foi para Santa Catarina?
Dedé - Fui trabalhar no Beto
Carrero World. Fiquei seis anos trabalhando com o Beto.
E o Sul tem uma qualidade de vida muito boa. Moro em
Itajaí, numa casa boa, na beira da praia e me acostumei
muito com aquela vida ali. Só sinto falta das feiras,que
lá não tem. Eu adoro ir à feira e sinto falta disso.
Quando morava aqui eu ia muito às feiras livres.
O que você acha do atual humor brasileiro? Que
programas você assiste?
Dedé - O humor brasileiro mudou
muito. Hoje eu assisto a programas como "A Grande
Família" e "Tapas e Beijos", que acho sensacional.
Também amo "A Mulher Invisível". Débora Falabella e
Luana Piovani estão maravilhosas no seriado.
Na sua opinião, quem é o grande humorista da
atualidade?
Dedé - isso é muito particular, mas
sou fã do Tiririca. Acho que ele é uma mistura de
Costinha com Dercy Gonçalves. Acho que até agora ele não
se achou... [risos].
Não? Ele está em Brasília!
Dedé - Agora é que ele se perdeu
porque foi ser conselheiro da Dilma [risos]. Mas ele tem
se esforçado muito pela cultura. Ele pediu que eu desse
uma mão para ele no setor circense porque o circo no
Brasil está muito abandonado.
É verdade que você é um noveleiro assumido?
Dedé - [risos]. Gravo todos os
capítulos de "Insensato Coração". Gravo tudo. Na sexta,
chego em casa bem cedinho e vejo todos os capítulos. Eu
não paro antes de terminar. Eu estou muito entusiasmado
com o trabalho do Antônio Fagundes. Ele sempre foi bom,
mas nesse papel está fora de série. Dos atores novos,
sou apaixonado pelo Lázaro Ramos e o Wagner Moura. E tem
o Gabriel Braga Nunes, que está trabalhando muito bem
como o vilão Léo. Aliás, os dois irmãos. O Eriberto Leão
também está muito bom. E, voltando um pouquinho, a
Mariana Ximenes fazendo a bandida Clara em "Passione"
também foi extraordinário.
Você se arrepende de alguma coisa que tenha
feito?
Dedé - Acho que não. Cheguei onde
eu consegui chegar com o apoio do público. Se não fosse
o público, talvez não estivesse aqui hoje, O público me
ajudou a criar meus 8 filhos, indo aos cinemas ver os
filmes dos Trapalhões. Nós ficamos muito tempo entre as
dez maiores bilheterias de cinema no Brasil na década de
80 e a gente deve muito ao Renato Aragão. Cheguei a
dirigir três filmes seguidos na época das férias
escolares.
O que mudou na sua vida após sua passagem pelo
CTI?
Dedé - Hoje dou muito valor para as
pequenas coisas. Às vezes, uma visita a um amigo se
torna imprescindível.Gosto de sair com os amigos para
jantar.
Data:
18/6/2011
Fonte: Uol |